O segredo das Zonas Azuis nunca esteve escondido
Fui até Okinawa entender por que as pessoas passam dos 100 anos. A resposta é simples e não custa nada.
por Samara Checon · 9 de agosto · leitura de 4 min
Estou escrevendo de um dos cinco lugares do mundo onde passar dos cem anos é comum.
Mas calma, vamos de deep? Somente cinco lugares no mundo inteiro são considerados Zonas Azuis (as famosas Blue Zones), regiões onde as pessoas vivem muito mais que a média, chegando aos 90 ou 100 anos com saúde. São eles: Sardenha na Itália, Ikaria na Grécia, Nicoya na Costa Rica, Loma Linda na Califórnia, e Okinawa no Japão, que é onde eu estou agora.
A Ilha da Longevidade
Okinawa tem um detalhe fascinante: é a casa das mulheres que mais vivem no mundo inteiro. Enquanto os homens vivem em média até os 84 anos, as mulheres chegam facilmente aos 90, e a concentração de pessoas centenárias é das maiores do planeta.
E qual é o segredo dessa longevidade?
Quando você faz essa pergunta, a maioria responde rápido: a alimentação. E tem muita verdade nisso. A dieta tradicional daqui é quase toda vegetal: muito legume, batata-doce roxa, pouca carne, pouco açúcar. Existe também uma prática famosa chamada Hara Hachi Bu, que é comer apenas até se sentir 80% satisfeito. Enquanto um americano médio consome cerca de 3.600 calorias por dia, o okinawano tradicional fica na casa das 2.000.
Moai e Ikigai: O poder de não estar só
Mas a informação que mais me surpreendeu não veio do prato. Veio das relações sociais.
A primeira coisa é o Moai: um grupo de amigos formado ainda na infância que se apoia a vida inteira, financeira e emocionalmente. Ninguém envelhece sozinho aqui.
A segunda é o Ikigai, que significa "razão de existir", o motivo que faz você levantar da cama de manhã. Aqui, mesmo com 90 anos, as pessoas mantêm um propósito, um trabalho, um papel ativo na comunidade. E isso faz toda a diferença.
Viver mais não é só sorte de nascença. É escolha, hábito e, principalmente, gente por perto.
Um estudo dinamarquês famoso, feito com quase três mil pares de gêmeos, estimou que só cerca de 20% de quanto a gente vive é definido pela genética. O resto seria estilo de vida e ambiente. A ciência ainda debate os números, mas o ponto central se mantém.
O óbvio que esquecemos
Claro que tem cientista que questiona até o mito das Zonas Azuis. Alguns dizem que os registros de idade das gerações antigas não são totalmente confiáveis e que a nova geração de Okinawa, que já come fast food, não vive mais tanto assim. Ou seja: talvez o milagre não seja mágica, genética, nem dieta secreta.
Talvez seja só o resultado de uma vida com comida de verdade, corpo em movimento o dia todo e gente por perto. O que, no fundo, é ainda mais poderoso, porque isso qualquer um pode copiar.
E foi aí que eu me peguei pensando: a gente vive caçando o atalho, o suplemento, a dieta da moda, o biohacking caro... E o lugar aonde as pessoas mais vivem no mundo não tem nada disso. Eles têm comida simples, andam bastante, param de comer quando ficam satisfeitos, têm amigos de infância e um motivo pra acordar todos os dias.
Nada disso é sofisticado, chega a ser quase óbvio, né? Então eu diria que difícil não é saber. Difícil é viver assim num mundo que te empurra justamente na direção contrária.
O segredo nunca esteve escondido. A gente é que parou de praticar.
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